A escala 6 x 1 deixou de ser apenas uma regra de organização do trabalho e se tornou símbolo de um modelo que rouba do trabalhador seu direito ao tempo livre. Trabalhar seis dias para descansar um significa escolher entre cuidar da saúde, conviver com a família, resolver tarefas domésticas ou recuperar o corpo. Ao transformar essa experiência cotidiana em debate nacional, o movimento pelo fim da 6 x 1 mudou a percepção do País: emprego digno não é somente salário, mas principalmente ter vida fora do serviço.
Essa mudança ajuda a explicar o desgaste dos parlamentares de extrema direita contrários à redução da jornada. Eles gostam de falar em família, liberdade e bem-estar, mas na hora de votar, defendem o modelo mais perverso para quem, ao contrário da maioria deles, depende da sua força de trabalho para viver. A contradição é evidente. Não existe defesa da família quando pais e mães não veem seus filhos; não existe liberdade quando o único dia de folga é consumido pelo cansaço e pelas obrigações acumuladas.
A direita tenta espalhar o medo de que trabalhar menos quebraria empresas e destruiria empregos, mas a experiência internacional desmente esse discurso. Países desenvolvidos frequentemente apresentados como exemplos de eficiência, como Alemanha, Dinamarca, Holanda e Noruega, possuem jornadas menores, férias amplas e relações de trabalho equilibradas. Nem assim deixaram de ser economias fortes e produtivas, mas ao contrário: seus limites à jornada estimularam a inovação, a organização, a qualificação e a produtividade por hora.
Mais tempo livre também movimenta a economia, já que o trabalhador descansado consome, estuda, cuida da saúde, frequenta espaços culturais, pratica esporte e participa da vida comunitária. Além disso, reduzem-se acidentes, afastamentos e doenças causadas pelo esgotamento. Ou seja, o debate sobre a escala 6 x 1 não opõe trabalhador e desenvolvimento, mas confronta dois projetos — um baseado na exploração e outro na dignidade. O Brasil começa a perceber que progresso não é trabalhar até adoecer, mas produzir melhor para viver bem.

Nilto Tatto é Deputado Feral(PT-SP) , Membro da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados e Presidente da Frente Parlamentar do Meio Ambiente
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