Há uma irracionalidade profunda no modo como a humanidade encara a crise ambiental. Quando surge uma ameaça militar, por exemplo, países como os Estados Unidos mobilizam trilhões de dólares, reorganizam economias, aceleram tecnologias e convencem sociedades inteiras de que é preciso agir imediatamente. Mas quando a ameaça é climática, ecológica, alimentar, hídrica e civilizatória, a resposta costuma ser lenta, fragmentada e insuficiente.
O paradoxo é brutal: por que a possibilidade de uma guerra mobiliza tanto medo, dinheiro e ação, enquanto a destruição das condições que garantem a vida na Terra ainda é tratada como assunto secundário?
A crise climática não é uma hipótese distante. Ela já está entre nós. Está nas enchentes que arrastam casas e vidas, nas secas que matam plantações, rios e animais, nos vendavais, furacões, tempestades e ondas de calor cada vez mais frequentes e intensos. Também está no preço dos alimentos, na falta d’água, nas doenças e no sofrimento das populações mais pobres, sempre as primeiras a sentir os impactos de um modelo que destrói a natureza e aprofunda desigualdades.
Mesmo assim, seguimos tratando o meio ambiente como se fosse matéria prima ou apenas um detalhe, uma paisagem de fundo, algo separado da economia, da saúde, da segurança e da vida cotidiana. Não é. Meio ambiente é a água que bebemos, o ar que respiramos, o alimento que chega à mesa, o equilíbrio do clima, a proteção das cidades e a sobrevivência das próximas gerações e a vida de bilhões de indivíduos.
A pergunta que eu faço nesta Semana do Meio Ambiente deveria incomodar governos, empresas e cada cidadão: o que ainda falta acontecer para que a humanidade desperte? Quantas tragédias serão necessárias? Quantas vidas perdidas? Quantas espécies extintas? Quantos biomas degradados? Quantas cidades destruídas? Quantos rios mortos? Quantas famílias desalojadas?
Enfrentar a crise ambiental exige a mesma urgência que o mundo dedica às guerras, mas com uma diferença essencial: aqui, a missão não é destruir inimigos, é proteger a vida. É investir em saneamento, moradia digna, transporte público, energia limpa, agricultura sustentável, proteção das florestas, adaptação das cidades e justiça climática.
A Semana do Meio Ambiente não pode ser apenas uma data simbólica. Precisa ser um chamado à lucidez. Defender o meio ambiente não é uma pauta de ambientalistas. É uma questão de sobrevivência. Talvez a maior irracionalidade do nosso tempo seja perceber que a casa está pegando fogo — e ainda assim discutir se vale a pena buscar água.
Nilto Tatto é Deputado Federal(PT-SP) . Membro da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados e Presidente da Frente Parlamentar do Meio Ambiente
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