Imagem: Dicas de Redação
Para além do choque, os bárbaros assassinatos de crianças em Santa Catarina provocaram comoção entre os jornalistas, pressionados entre a função de informar e os perigos envolvidos na comunicação de massacres, um problema bem conhecido entre a imprensa dos Estados Unidos e que precisamos urgentemente discutir. O que já vem acontecendo em algumas redações, inclusive na nossa.
Não estou falando de sensacionalismo, um mal que se expande com a voracidade das redes entre uma parte da mídia. Exposição de vídeos dos ataques, perfil de assassinos, e outros expedientes destinados à curiosidade mórbida da audiência e explorada à exaustão nas plataformas que premiam o ódio não são dignos de um jornalismo a serviço do interesse público e devem ser publicamente condenados.
Mas não é fácil a tarefa de quem tem que dar a notícia. Quando um fato brutal e inesperado (por mais que se dê em um contexto conhecido de violência social) nos atinge em cheio, a primeira reação é querer saber, buscar uma explicação, exigir a punição imediata do culpado. Saber quem é ele, quais suas motivações.
Devemos ocultar o nome e a imagem de um assassino – que pode, por exemplo, fugir da cadeia sem ser reconhecido – para não trazer a notoriedade presumidamente desejada pelos que cometem crimes avassaladores?
Esta foi a decisão do Estadão, tomada depois de ouvir especialistas em comunicação e violência, segundo o jornal, que alertaram para o bem conhecido efeito do “contágio”, em que o criminoso exibe os assassinatos como troféus, estimulando novos crimes, um fenômeno que se tornou virulento nas redes sociais. Uma boa justificativa para a decisão do jornal, endossada por entidades como a Jeduca (Associação de Jornalistas da Educação), que já havia feito um manual sobre o tema. Mas que pode trazer outras complicações, a começar pelo apagamento da autoria do crime.
Conhecer a identidade do criminoso não é direito da sociedade, até para se proteger? Como investigar (não presumir, nem reproduzir declarações de policiais) se o assassino pertence a comunidades de ódio, por exemplo, ou se extremismos políticos fazem parte de suas motivações sem revelar quem cometeu o crime? Casos concretos debatidos publicamente não são importantes para responsabilizar plataformas que premiam a violência alavancando esse tipo de conteúdo? Como provar a conexão entre crimes e ideologias extremistas ou relacioná-lo ao contexto cotidiano de violência nas escolas se apagamos a história do autor do crime?
Do lado das vítimas, o equilíbrio também pode ser difícil. É óbvio que temos que respeitar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que exige a preservação da identidade de crianças e adolescentes, mesmo que sejam agressores, como o menino que matou a professora em uma escola de São Paulo na semana passada, cuja identidade vazou rapidamente nas redes sociais e em veículos irresponsáveis.
Mas e quando as crianças são as vítimas? Devemos torná-las invisíveis? Seria isso o que as famílias desejam? Lembro aqui a fala de um pai, que perdeu o filho de 5 anos no ataque à creche de Blumenau: “Vou honrar a memória do meu filho todos os dias, fazer valer a pena todos os momentos”, disse, antes de relembrar brincadeiras feitas com o pequeno Bernardo. Não deveríamos falar sobre ele?
São perguntas, não conclusões. Concordo com os que pedem urgência no estabelecimento de regras para a cobertura desse tipo de massacre – os abusos são constantes e repugnantes. A sociedade tem o direito e o dever de cobrar responsabilidade na cobertura desses eventos, infelizmente cada vez mais comuns entre nós: um relatório escrito pelo educador Daniel Cara no GT de transição do governo contabilizou 22 ataques violentos em escolas entre 2002 e 2022, o que já é estarrecedor. O pior, porém, é que aparentemente eles vêm se intensificando: foram 9 ataques nos últimos seis meses.
Atribuir culpa apenas à imprensa também pode ser uma saída fácil – e ilusória.
Temos que debater francamente o que deve ser compartilhado com o público e de que forma, mas garantindo o acesso público a informações sobre esses crimes para que a imprensa possa investigá-los com transparência diante da sociedade, contribuindo para soluções reais diante da complexa realidade vivida por nossas crianças e adolescentes, sujeitos a todo tipo de violência, inclusive de agentes do Estado, como mostra a invasão do Bope atrás de supostos traficantes em uma escola no Complexo da Maré nesta semana.
Uma cobertura sistemática sobre a infância e a adolescência é igualmente urgente para entender e deter a propagação da violência que nos marca como país e ganha velocidade entre as crianças e adolescentes – um segmento da população vulnerável, altamente exposto às redes sociais e ignorado ou mal compreendido pela imprensa.
Também pode ser um caminho para desmascarar falsas soluções, como colocar homens armados nas escolas, uma proposta de deputados da extrema-direita bolsonarista, e para monitorar a construção de políticas públicas, como a iniciativa do governo federal de criar um grupo de trabalho para elaborar um plano de prevenção à violência nas escolas, que não pode se perder entre boas e vagas intenções.
Investigar, buscar soluções reais e cobrar responsabilidades publicamente, sem descer ao sensacionalismo, é a nossa função. Que a sociedade nos cobre com dureza, mas de olho em suas próprias mazelas.
Fonte: Marina Amaral – Diretora executiva da Agência Pública
marina@apublica.org
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