A escala 6×1 concentra os maiores registros de sobrecarga de horas extras, segundo levantamento da VR com dados de atestados e pontos registrados no app de RH da empresa usado por quase 33 mil empresas. Até outubro de 2025, foram cerca de 136 milhões de horas extras, geradas por mais de 1 milhão de trabalhadores. Trabalhadores na escala 6×1 representam 41,9% dos casos de excesso significativo (de 54 a 64 horas semanais) e 19,6% dos casos de excesso extremo (acima de 64 horas).
A EXAME publicou uma reportagem abordando um tema que precisa estar no centro das decisões de empresas e lideranças: o avanço dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho e o papel da NR-1 nesse cenário.
A reportagem parte de dados analisados pela VR a partir da entrega de atestados médicos e registros de jornada no SuperApp VR, para reforçar um ponto essencial: saúde mental deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar e passou a ser um tema de gestão de riscos, governança e sustentabilidade dos negócios.
Com a atualização da NR-1, as empresas passam a ter a responsabilidade formal de identificar, avaliar e gerenciar também riscos como sobrecarga de trabalho, pressão excessiva, organização da jornada e impactos emocionais do trabalho. Nesse contexto, o controle adequado da jornada se consolida como um dos principais instrumentos de prevenção, não apenas de conformidade legal, mas de proteção das pessoas e do próprio negócio.
Segundo o estudo, pessoas nesse regime representam:
- 29% dos casos de excesso moderado (entre 44 e 54 horas semanais),
- 41,9% dos casos de excesso significativo (54 a 64 horas) e
- 19,6% dos casos de excesso extremo, acima de 64 horas semanais.
O cenário reforça a necessidade de atenção à Gestão de Riscos Ocupacionais (GRO), um dos pilares da atualização da NR-1, que passa a valer a partir de maio de 2026 e amplia a responsabilidade das epresas sobre riscos físicos , ergonõmicos no trabalho.
Para Cássio Carvalho, diretor-executivo de negócios da VR, os impactos da nova norma tendem a aparecer primeiro nos setores com jornadas intensivas, alta rotatividade e pressão operacional constante.
“Varejo, logística, transporte, call centers, indústria e serviços essenciais costumam concentrar maior exposição a riscos psicossociais, como sobrecarga, metas agressivas e menor previsibilidade de jornada.”
A NR-1, de acordo com o executivo da VR, não cria novos riscos, ela só torna visível aquilo que já existe.
“Por isso, os setores que já operam no limite sentirão antes a necessidade de estruturar melhor a gestão da jornada, o acompanhamento de indicadores e a atuação preventiva das lideranças.”
Varejo: o setor que lidera concentração de jornadas 6×1
Na base analisada pela VR, o comércio varejista é o setor que mais concentra trabalhadores na escala de seis dias de trabalho e apenas uma folga. Dados de 2024 da própria VR já indicavam que mais da mais da metade das empresas que adotam o modelo pertencem ao varejo, seguidas por alimentação, administração, hotelaria e outros segmentos que, em muitos casos, sequer operam com escalas bem definidas.
Para Carvalho, o problema vai além da legislação e passa por uma mudança de mentalidade na gestão.
“A gestão de jornada não pode ser tratada como custo operacional, e sim como um indicador de sucesso para o empregador. Quando a liderança entende isso, abre espaço para práticas automatizadas de escala e gestão, que poupam tempo dos profissionais de Recursos Humanos e ainda protegem tanto as pessoas quanto os resultados”, afirma.
Segundo cálculos do Painel de Impacto Social da VR, clientes que utilizam os serviços de RH Digital economizaram mais de R$ 1 bilhão até novembro deste ano com redução de processos trabalhistas, turnover e falhas no controle de jornada.
Jornadas intensivas e risco de falência
Um dos dados mais contundentes do levantamento desmonta a ideia de que jornadas mais longas garantem maior produtividade e sobrevivência do negócio. O cruzamento das informações mostra justamente o oposto: empresas com jornadas mais intensivas tendem a durar menos.
Entre as companhias que fecharam as portas, 42% tinham predominância de trabalhadores em escala 6×1, com tempo médio de vida de cinco anos. Já entre aquelas que operavam majoritariamente em escala 5×2, que representam 33% da base analisada, a sobrevivência é maior, com média de sete anos de operação, segundo o estudo da VR.
Para Carvalho, os dados reforçam que discutir jornada de trabalho deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar e passou a ser um tema estratégico, diretamente ligado à sustentabilidade dos negócios — especialmente em um contexto de endurecimento regulatório, com a NR-1, e maior fiscalização sobre saúde mental e riscos psicossociais no trabalho.
Como empresas podem reconhecer os riscos internos?
O primeiro passo, segundo Carvalho, é conhecer o próprio risco, e isso começa pelo uso inteligente dos dados de jornada.
“Antes de qualquer mudança estrutural, a empresa precisa identificar onde estão os excessos — horas extras recorrentes, jornadas prolongadas, acúmulos de banco de horas e picos operacionais mal distribuídos”, afirma.
A partir desse diagnóstico, o executivo afirma que é possível ajustar escalas, automatizar controles e redistribuir cargas de trabalho de forma mais eficiente.
“Em muitos casos, reduzir excessos melhora produtividade, diminui afastamentos e reduz custos ocultos”, afirma o executivo, que reforça que a NR-1 estimula exatamente esse olhar: eficiência com sustentabilidade, não á custa da saúde das pessoas.
Um alerta para CEOs e RHs
O principal alerta do executivo é: saúde mental não é mais um tema periférico.
“Ela se tornou um fator direto de risco humano, jurídico e financeiro. Ignorar sinais como aumento de afastamentos, excesso de jornada e sobrecarga emocional significa assumir riscos cada vez maiores para negócios
Para Carvalho, a NR-1 deixa claro que prevenir é uma responsabilidade de gestão. As empresas que se anteciparem, estruturando processos, capacitando lideranças e usando dados para tomada de decisão, não apenas estarão em conformidade, mais serão mais resilientes e sustentáveis no longo prazo.
Fonte: Layane Serrano – Exame
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