Waldirene nasceu em 1945, no município de Lins, interior de São Paulo. Aos 26 anos, ela realizou a cirurgia de redesignação sexual com o médico paulista Roberto Farina. Seu caso se tornou ainda mais conhecido quando a cirurgia foi denunciada pelo então Procurador de Justiça de São Paulo, Luiz de Mello Kujawski.
A história de Waldirene Nogueira é marcada pela coragem, resistência e pela luta por dignidade em um país que, durante décadas, negou direitos básicos às pessoas trans. Reconhecida como a primeira mulher trans do Brasil a realizar uma cirurgia de redesignação sexual, em 1971, ela abriu caminhos em um período de intenso preconceito, repressão e invisibilidade social.
Waldirene enfrentou não apenas o julgamento da sociedade, mas também perseguições institucionais. Sua identidade foi questionada publicamente, seu corpo foi exposto à violência do Estado e sua existência tratada como crime em uma época em que ser trans significava viver à margem. Ainda assim, ela nunca deixou de lutar pelo direito de ser reconhecida como mulher.
Sua trajetória simboliza a coragem de quem decidiu existir mesmo diante do medo, da discriminação e da solidão. Waldirene precisou esperar décadas para conseguir retificar seus documentos e ter oficialmente reconhecido o nome que escolheu para si. Sua vida se transformou em um marco histórico para a população trans brasileira, representando resistência, identidade e humanidade.
Falar sobre Waldirene Nogueira é lembrar que cada conquista da população trans no Brasil foi construída com muita dor, persistência e enfrentamento. Sua história permanece viva como símbolo de pioneirismo e inspiração para novas gerações que seguem lutando por respeito, igualdade e direito de existir plenamente.
De acordo com registros da época, o procurador ficou sabendo do caso após uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo, que cobriu um congresso de urologia em que Farina teria apresentado o estudo de caso de Waldirene.
Na denúncia, Kujawski afirmou que a cirurgia se tratava de uma “mutilação genital” e, por essa razão, foi aberta uma investigação e um processo judicial contra o médico em 1976.
Em fevereiro do mesmo ano, Waldirene foi convocada a realizar uma avaliação sobre sua “situação física” no IML (Instituto Médico Legal). Ela foi submetida a diversos exames para comprovar se ela era uma mulher biológica.
Mesmo que o laudo reconhecesse que o corpo de Waldirene possuía características femininas e masculinas, o promotor de Justiça Pública Messias Piva formalizou uma outra denúncia contrariando a existência da mulher trans e defendendo que o médico fez “uso de violência”.
O caso chegou a ser tratado como um crime de lesão corporal de natureza gravíssima. Farina chegou a ser condenado em primeira instância, mas foi absolvido três anos depois, em 1979.
O médico utilizou, em sua defesa, a literatura médico-científica que concebia a existência de corpos trans, conteúdo esse que possibilitou o avanço da compreensão sobre a transição de gênero.
Legado de Waldirene
Waldirene representa um símbolo de luta e existência às pessoas trans que sofreram e sofrem a violência cotidianamente.
O Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans Professor Roberto Farina, vinculado à Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), prestou homenagem à Waldirene e considerou que ela enfrentou o aparato estatal durante sua história.
“O Núcleo TransUnifesp agradece a dignidade com que Waldirene segurou sua bandeira por décadas”, diz a nota de pesar publicada nas redes.
O Núcleo TransUnifesp recebe com profunda tristeza a notícia do falecimento de Waldirene Nogueira, ocorrido nesta data de 19 de maio de 2026. Ao expressar suas condolências a familiares, amigos e a toda a comunidade trans brasileira, este Núcleo se une ao luto coletivo de um movimento que muito lhe deve — e que carrega, em sua própria existência, a marca indelével de sua coragem.
Waldirene Nogueira nasceu em 1945 no interior de São Paulo e foi a primeira mulher trans a realizar cirurgia de redesignação sexual no Brasil, operada em 1971 pelo cirurgião Roberto Farina da Unifesp. Ela enfrentou o aparato estatal em toda a sua brutalidade: a perseguição judicial do Ministério Público, os exames compulsórios do IML, a violência simbólica de ser chamada de “monstro”, “prostituta” e “doente mental” pelas próprias instituições que deveriam lhe garantir dignidade. Tudo isso em plena ditadura militar, sem redes de apoio organizadas, sem legislação protetiva, sem movimento social estruturado.
O processo contra o Dr. Farina, que resultou em condenação na primeira instância e posterior absolvição em 1979, tornou-se um marco na história jurídica e médica do Brasil. Waldirene carregou esse fardo involuntariamente, transformada em objeto de disputa judicial quando desejava apenas viver. E mesmo assim, como ela própria disse décadas depois: “Eu fui pioneira. Segurei bandeira até para quem não me conhece.”
O Núcleo TransUnifesp agradece a dignidade com que Waldirene segurou sua bandeira por décadas. Ela sempre foi uma parceira e esteve junto conosco, inclusive no nosso evento de 10 anos celebrado em dezembro de 2025, quando pudemos homenageá-la mais uma vez por toda sua importância.Descanse em paz, Waldirene. Sua bandeira segue erguida.
Núcleo TransUnifesp — Universidade Federal de São Paulo
19 de maio de 2026 – Instagram nucleotransunifesp
A equipe do JORNAL DE LINS envia condolências a familia; “Respeitar pessoas trans é respeitar a vida, a identidade e a liberdade de cada ser humano ser exatamente quem é!”





























































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