A campanha presidencial de 2026 coloca novamente o Brasil diante de um velho problema da política: a disputa entre aquilo que os candidatos dizem e aquilo que os fatos permitem comprovar.
No caso de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, há questões econômicas, políticas, institucionais e pessoais que precisam ser enfrentadas com transparência. O eleitor brasileiro tem o direito de conhecer não apenas as promessas de campanha, mas também o passado político do grupo que pretende governar o país.
Economia: olhar para os números, não apenas para o discurso
Flávio Bolsonaro apresenta seu programa como uma proposta de redução do tamanho do Estado, corte de despesas e busca de equilíbrio fiscal. Seu plano de governo fala em um verdadeiro “Tesouraço” para reduzir estruturas e despesas públicas.
Mas qualquer discussão séria sobre equilíbrio fiscal precisa colocar todas as despesas e renúncias na mesa.
O próprio governo federal estima que os benefícios tributários representam centenas de bilhões de reais por ano. O Projeto de Lei Orçamentária de 2026, por exemplo, citou estimativa de aproximadamente R$ 544,47 bilhões em benefícios tributários para 2025 e destacou que parte dessas renúncias favorece determinados setores da economia.
Portanto, discutir responsabilidade fiscal não pode significar simplesmente falar em cortar políticas destinadas aos mais pobres. É preciso discutir também benefícios tributários, subsídios, privilégios, despesas obrigatórias e todas as demais contas que compõem o orçamento público.
O passado também precisa ser lembrado
Flávio Bolsonaro é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e fez sua trajetória política dentro do grupo que governou o Brasil entre 2019 e 2022.
Na pandemia de Covid-19, o governo Jair Bolsonaro foi alvo de críticas e de uma investigação parlamentar pelo tratamento dado à crise sanitária. A CPI da Pandemia registrou críticas à minimização da doença, à resistência a medidas de isolamento, à promoção de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e à demora na aquisição de vacinas.
Isso não é uma questão de opinião partidária. Faz parte da história política recente do Brasil e precisa ser considerado quando integrantes daquele grupo apresentam novas propostas para governar o país.
Democracia e instituições
Outro ponto que não pode ser escondido é a relação do bolsonarismo com as instituições democráticas.
O Supremo Tribunal Federal registra que Jair Bolsonaro foi condenado definitivamente por tentativa de golpe de Estado. O STF também contabiliza milhares de procedimentos relacionados aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.
Flávio Bolsonaro tem defendido posições de confronto com o Supremo Tribunal Federal e criticado decisões de ministros da Corte. Durante a atual campanha, também voltou a defender mudanças e medidas contra integrantes do STF.
É legítimo criticar decisões judiciais. O que precisa ser discutido é até onde pode ir um projeto político que questiona decisões de uma Corte constitucional e, ao mesmo tempo, busca apoio e pressão política externa em questões que dizem respeito à soberania brasileira.
O salário mínimo, a Previdência e a proteção social
O debate fiscal também precisa ser transparente quando envolve salário mínimo, aposentadorias e programas sociais.
Uma eventual mudança na política de valorização do salário mínimo produziria efeitos sobre milhões de trabalhadores e também sobre benefícios previdenciários e assistenciais vinculados ao piso nacional.
Por isso, qualquer proposta nessa área deve ser apresentada claramente ao eleitor: qual será o mecanismo de reajuste? Como serão corrigidas aposentadorias e pensões? O que acontecerá com os benefícios sociais? Quais serão os impactos para trabalhadores que recebem o salário mínimo?
Não basta utilizar a expressão “equilíbrio fiscal”. O eleitor precisa conhecer quem pagará a conta das mudanças.
O próprio plano oficial de Flávio Bolsonaro apresenta propostas de forte redução do tamanho do Estado e de revisão das despesas públicas.
É justamente por isso que a sociedade deve exigir detalhes.
Segurança pública: combater o crime organizado por inteiro
Flávio Bolsonaro apresenta o endurecimento da segurança pública como uma de suas principais bandeiras. Seu programa fala em aumento de penas, encarceramento e enfrentamento mais rigoroso do crime.
Mas combater o crime organizado exige mais do que operações nas periferias.
É necessário investigar quem financia as organizações criminosas, quem lava o dinheiro, quais empresas são utilizadas para ocultar recursos, quais redes econômicas dão sustentação ao crime e quem ocupa posições de comando.
O enfrentamento ao crime precisa alcançar o criminoso armado na ponta e também os operadores financeiros que movimentam grandes quantias longe dos territórios onde a violência acontece.
Uma política de segurança pública que não investigue o dinheiro do crime organizado estará combatendo apenas uma parte do problema.
O caso Daniel Vorcaro e o filme sobre Jair Bolsonaro
Existe ainda uma questão que Flávio Bolsonaro precisa esclarecer de maneira completa: a relação financeira com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
O próprio Flávio confirmou ter procurado Vorcaro para obter financiamento privado para a produção. Reportagens revelaram negociações envolvendo valores muito elevados, e a Polícia Federal passou a investigar os repasses relacionados ao filme.
Em setembro de 2026, documentos divulgados no âmbito da investigação passaram a indicar que Flávio atuou como interlocutor direto nas negociações envolvendo US$ 24 milhões. A investigação continua e Flávio nega irregularidades.
A pergunta, portanto, não deve ser transformada em condenação antecipada. Deve ser transformada em exigência de transparência:
Quanto dinheiro foi efetivamente recebido? De quem? Por intermédio de quais empresas ou fundos? Onde o dinheiro foi aplicado? Quem administrou os recursos? Quanto foi efetivamente gasto na produção do filme? Houve outros beneficiários?
Essas respostas são importantes porque dinheiro e política não podem viver em zonas de sombra.
O Brasil precisa de informação, não de propaganda
A eleição presidencial deveria ser uma oportunidade para discutir projetos de país.
O eleitor precisa conhecer os números, as propostas, os custos, os antecedentes e as consequências de cada projeto político.
Não basta dizer que vai combater o déficit. É preciso explicar como.
Não basta prometer segurança. É preciso explicar como serão enfrentados os grandes financiadores do crime.
Não basta defender mudanças no STF. É preciso explicar quais limites institucionais serão respeitados.
Não basta falar em redução do Estado. É preciso dizer quais serviços serão preservados e quem será afetado pelos cortes.
E não basta afirmar que determinado recurso foi destinado a um filme. É preciso apresentar contratos, valores, origem e destino do dinheiro quando esses dados são objeto de questionamentos e investigação.
A democracia não se fortalece com propaganda política baseada em versões convenientes dos fatos. Fortalece-se quando candidatos, governos e partidos aceitam prestar contas de suas decisões.
O Brasil não precisa de políticos que escondam perguntas difíceis. Precisa de políticos dispostos a respondê-las.
E essa cobrança vale para Flávio Bolsonaro, para o bolsonarismo, para Lula, para o PT, para a direita, para a esquerda e para qualquer grupo que pretenda governar o Brasil.
Porque, no fim, o patrimônio mais importante da democracia não é o poder de quem governa.
É o direito de o cidadão saber a verdade e decidir livremente a partir dela.
Antonio Fidélis dos Santos é Consultor – Empresário – Defensor da Democracia e da Justiça Social. Um apaixonado por Lins. E-mail: antoniofidelis.consultoria@gmail.com
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