É inexplicável entender como alguém que tem a caridade como missão incomode tanto. Jesus Cristo, em sua época, também incomodou os poderosos, principalmente aqueles que levavam o nome de Deus aos fiéis aglomerados em templos faraônicos enquanto a população passava fome.
Foi com grande indignação que a notícia de que o Padre Julio Lancellotti estaria impedido de utilizar suas redes sociais ou meios digitais para transmitir missas e divulgar suas ações foi recebida. A ordem partiu do cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer.
Padre Júlio, que atua há mais de 40 anos na Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, confirmou a determinação do seu superior.”Dom Odilo me pediu para dar um tempo. Ele acha que é uma forma de recolhimento e de proteção”, disse o religioso à Folha de SP. Quando perguntado se concordava ou não com aquilo, disse apenas que tinha que obedecer.
Em um tom conciliador, ele esclareceu que a diretriz do arcebispo visa um período de “recolhimento e proteção” diante dos frequentes ataques e críticas que o sacerdote tem recebido de grupos políticos, incluindo ações recentes de parlamentares de direita.
Em nota divulgada nesta terça-feira (16), o padre reforçou que as transmissões estão temporariamente suspensas. Além disso, suas redes não serão movimentadas por um período de recolhimento temporário. Lancellotti também fez questão de negar os rumores de que teria sido removido ou transferido de sua paróquia.
Embora o religioso complete 77 anos no final deste mês (idade em que padres podem ser removidos para aposentadoria, conforme regra eclesiástica), ele afirmou que nenhuma transferência foi oficializada até o momento por Dom Odilo. As missas presenciais em sua paróquia continuam sendo celebradas normalmente.
Quem é o padre Julio Lancellotti?
Padre Julio Lancellotti é uma das figuras mais atuantes da Igreja Católica e um símbolo de defesa dos Direitos Humanos. Sua vida e obra são inteiramente dedicadas aos marginalizados, seguindo, assim, na prática, os ensinamentos de Jesus Cristo. É o coordenador da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, dedicando-se há mais de quatro décadas à população em situação de rua da capital.
Nascido em 1948 na capital paulista, Julio Lancellotti é sacerdote ordenado há 40 anos. Como padre diocesano, ou seja, ligado diretamente à diocese e não a uma ordem religiosa, ele deve obediência direta ao bispo — padres fazem uma promessa solene de viver em simplicidade, exercer o celibato e obedecer ao superior hierárquico.
Além de pároco de São Miguel Arcanjo, ele é o atual vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua.
Segue a Teologia da Libertação, com um trabalho que une oração e ação social em defesa da vida digna. Por esta dedicação à causa social, é comum encontrá-lo nas ruas, distribuindo alimentos, oferecendo assistência e confrontando o descaso do poder público. No entanto, sua missão vai além das ruas: atua na assistência a adolescentes em conflito com a lei, detentos, pessoas com HIV/Aids e dependentes químicos. É um dos fundadores da Comunidade Povo da Rua São Martinho de Lima.
Seus posicionamentos a favor da inclusão de minorias, de dependentes químicos a transexuais, e seu trabalho de ajuda a moradores de rua de São Paulo costuma despertar críticas intensas, sobretudo de internautas alinhados à extrema-direita.
“Mesmo que a gente fique sem ar, vai aparecer um tubo de oxigênio”, afirmou o padre, na missa do último dia 14. Ele não disse o motivo da suspensão da presença nas redes, mas segundo pessoas próximas a ele a imposição teria sido da arquidiocese de São Paulo, comandada pelo cardeal arcebispo dom Odilo Scherer. A entidade, superiora direta da paróquia de Lancellotti, não se manifestou publicamente a respeito, ressaltando que tais tratativas são do “âmbito interno” e devem ser conduzidas entre os envolvidos.
Para o teologo Gerson Leite de Moraes, mesmo que haja tais alegações de que a proibição das transmissões de Lancellotti sejam para preservá-lo, “isso acaba sendo muito ruim” porque “contribui para frear uma voz progressista em um momento em que a fogueira das eleições [de 2026] já começa ser acesa”.
“Isso desagrada o campo progressista porque o padre Julio é um grande representante do cristianismo que age de maneira efetiva junto aos marginalizados, aos pobres, aos necessitados”, argumenta o teólogo.
“A justificativa sempre vai ser no sentido da preservação do sacerdote, da obra, para que não haja um achincalhe contra ele, para que a transmissão não vire palco para a polarização, para que os manifestantes não ataquem a Igreja em um momento sagrado, mas isso passa a imagem da censura, cria descontentamento”, acrescenta Moraes.
Padre Júlio, em razão de sua coerência com a luta dos empobrecidos e com a pregação do evangelho, sempre foi, em razão de suas atividades pastorais, perseguido, caluniado e difamado. Todos nós somos sabedores e testemunhas disso”, diz o texto. “Mais recentemente e pelas mesmas razões, tornou-se alvo de uma campanha de ódio organizada — esta sim politicamente — que visa criminalizar a ação da Igreja pela evangélica opção preferencial pelos pobres.”
Ele afirma que Scherer “não pediu a interrupção da missão de padre Júlio, não questionou sua fidelidade ao evangelho e nem o desautorizou pastoralmente”. “Ao contrário, buscou protegê-lo de uma escalada de violência que só interessa a quem lucra com o ódio, pessoas que fazem a vida vendendo posts em redes sociais e jornais da extrema direita, inclusive se fazendo próximo e agindo sorrateiramente contra a comunidade”, argumenta.
Por: Ana Fidelis – Chefe de Redação do Jornal de Lins
Fonte de pesquisa BBC News Brasil
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