As afirmações elogiosas da ex-dirigente regional de ensino de Mogi das Cruzes, Roselaine Batalha Silva, aos líderes nazistas e fascistas Adolph Hitler, Benito Mussolini e Antônio Salazar, durante reunião online com diretores de escolas, mostram como o governo de Tarcísio de Freitas está impregnado de ideias autoritárias.
A ex-dirigente recomendou a leitura de biografias dos citados ditadores e classificou esses tiranos como “líderes excepcionais”, definindo a leitura do livro “Mein Kampf”, de Hitler, como “estimulante”. Desta forma, escancarou uma crise ética e conceitual na atual gestão educacional do Estado de São Paulo.
Imediatamente, procurei o jornal Folha de S. Paulo, coluna da jornalista Monica Bergamo, para amplificar a denúncia do fato, ao mesmo tempo em que sugeri à direção da APEOESP, Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, que ingressasse com representação no Ministério Público, o que foi feito. O caso vem ganhando ampla repercussão e acende um debate necessário sobre a gestão educação paulista.
O argumento central utilizado pela senhora ex-dirigente de ensino, pessoa de confiança do governador Tarcísio de Freitas, para justificar a recomendação baseava-se na suposta necessidade de estudar “como esses homens conseguiam arrastar multidões” e exercer a persuasão. Essa tentativa de isolar a “técnica de liderança” do conteúdo ideológico dos regimes totalitários é uma profunda aberração pedagógica. Descolar o método de mobilização de massas de Hitler, Mussolini ou Salazar da tragédia humanitária, do holocausto e do sufocamento das liberdades individuais, significa normalizar a barbárie sob o pretexto da eficiência administrativa. O poder de convencimento de um ditador não é um predicado a ser admirado ou emulado como “estudo de caso”, mas sim a ferramenta que viabilizou o extermínio de milhões.
Para além da gravidade ética, o episódio expôs lacunas conceituais preocupantes para quem ocupava o topo da hierarquia de ensino de uma região inteira. Ao atribuir a liderança da Espanha ao ditador português António de Oliveira Salazar durante sua exposição, a ex-dirigente demonstrou um desconhecimento historiográfico primário. A combinação entre o despreparo técnico e a exaltação velada do autoritarismo compromete a credibilidade da rede pública e contraria os princípios fundamentais da educação nacional, pautada na promoção dos direitos humanos e da cidadania democrática.
A resposta da administração pública, ao afastar a gestora e abrir apuração rigorosa, é o único caminho cabível diante de um cenário que tangencia a apologia ao nazismo. A escola pública não pode se transformar em espaço de relativização do fascismo. O estudo sobre regimes totalitários nas redes de ensino deve existir rigorosamente para ensinar o horror dessas páginas da história humana, garantindo que nunca mais se repita — e jamais para resgatar os métodos de seus algozes como lições de governança.
Professora Bebel é Deputada Estadual – PT e Primeira Presidenta licenciada da APEOESP
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