Depois de mais de quatro décadas acompanhando a política brasileira, aprendi que uma eleição nunca termina simplesmente quando as urnas deixam de ser apuradas.
Às vezes, é justamente naquele momento que começa a parte mais importante da história.
O primeiro turno das eleições de 2026 deixou um recado muito claro: o Brasil continua profundamente dividido e as forças políticas de direita saem fortalecidas, especialmente na composição do Congresso Nacional.
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos. Os dois agora disputarão o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Eu acredito na vitória de Lula.
É a minha leitura política e a minha expectativa.
Mas não tenho nenhuma ilusão sobre o que poderá acontecer depois.
Se Lula vencer, talvez o maior desafio de seu próximo governo não esteja na Presidência da República. Estará no Congresso Nacional.
A eleição de um Congresso mais à direita
Os números são expressivos.
O PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara. O PT ficou com 70 cadeiras. Na nova composição, a direita terá uma presença majoritária na Câmara, segundo levantamento publicado após a eleição.
No Senado, o cenário também mudou profundamente.
O PL elegeu 19 senadores e deverá iniciar 2027 com 28 integrantes, tornando-se a maior bancada da Casa — a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde 1988.
Isso não significa que todos esses parlamentares pensem exatamente da mesma maneira.
É importante fazer essa distinção.
Há direita, centro-direita, conservadores, liberais e diferentes correntes dentro desse campo político.
Mas existe uma mudança concreta na correlação de forças do Congresso.
E qualquer presidente eleito terá de lidar com essa realidade.
O problema não será apenas ganhar. Será governar.
É aqui que faço uma reflexão que considero fundamental.
Uma eleição presidencial pode ser vencida com uma maioria de votos.
Mas um país não é governado apenas com votos para presidente.
É preciso construir maioria no Congresso.
É preciso aprovar orçamento.
É preciso aprovar leis.
É preciso negociar.
É preciso construir alianças.
E é preciso, sobretudo, saber estabelecer limites quando determinadas pautas possam atingir o equilíbrio entre os Poderes da República.
No campo político bolsonarista, ganharam força durante a campanha propostas relacionadas à situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos condenados pelos atos de 8 de janeiro, além de uma agenda de enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal.
A nova composição do Senado, inclusive, já é apontada como fator de aumento da pressão política sobre o STF.
Esse será um dos grandes temas da próxima legislatura.
Não podemos transformar o Brasil em uma guerra entre Poderes
Sou daqueles que defendem a liberdade de crítica.
Ministros do Supremo podem e devem ser criticados.
Deputados e senadores podem defender mudanças na legislação.
O governo pode ser criticado.
A oposição tem o direito de fiscalizar e denunciar.
Isso é democracia.
Mas existe uma diferença enorme entre criticar uma instituição e tentar destruí-la.
Podemos discutir decisões judiciais.
Podemos discutir os limites de atuação do STF.
Podemos discutir mecanismos de responsabilização previstos na Constituição.
Mas precisamos preservar aquilo que sustenta uma democracia: Constituição, eleições livres, separação dos Poderes, liberdade de imprensa, direito de oposição e respeito às decisões tomadas dentro das regras institucionais.
Nenhum presidente é maior que a República.
Nenhum deputado é maior que a Constituição.
Nenhum senador é maior que o Brasil.
E nenhum ministro do Supremo está acima da Constituição.
As instituições precisam ser maiores do que as pessoas que temporariamente ocupam seus cargos.
O debate econômico também será duro
Outro enfrentamento importante acontecerá na área econômica.
O novo Congresso deverá reunir uma maioria favorável a políticas de maior controle dos gastos públicos e revisão de despesas governamentais.
Esse debate é legítimo e necessário.
Não acredito em Estado que desperdiça dinheiro público.
Defendo responsabilidade, eficiência e transparência.
Mas também não acredito que a solução para equilibrar as contas públicas seja simplesmente retirar recursos de quem mais precisa.
Quando falamos em orçamento, estamos falando de pessoas.
Estamos falando do SUS.
Das escolas.
Das universidades.
Da educação profissional.
Da assistência social.
Dos programas de transferência de renda.
Da infraestrutura.
Da ciência.
Da cultura.
Dos municípios.
Portanto, o verdadeiro debate não deveria ser simplesmente “gastar ou cortar”.
Deveria ser:
onde gastar, quanto gastar, como gastar e quem será beneficiado pelo dinheiro público.
É possível defender responsabilidade fiscal e, ao mesmo tempo, defender políticas sociais.
É possível combater desperdícios sem abandonar os mais pobres.
É possível buscar equilíbrio das contas públicas sem aceitar que o preço seja pago justamente por aqueles que mais precisam do Estado.
E a esquerda? Precisa entender o recado das urnas
Aqui faço uma crítica também ao nosso próprio campo político.
Se Lula vencer o segundo turno, não será suficiente comemorar.
Será necessário compreender o tamanho do recado dado pelas urnas.
As forças progressistas precisam se reorganizar.
Precisam ampliar o diálogo.
Precisam abandonar determinadas bolhas.
Precisam conversar novamente com quem pensa diferente.
Precisam compreender que o Brasil não é formado apenas por militantes partidários.
O Brasil é formado por trabalhadores, pequenos empresários, empreendedores, agricultores, servidores públicos, profissionais liberais, jovens, aposentados, religiosos, estudantes, trabalhadores informais e milhões de pessoas que simplesmente querem viver melhor.
Essas pessoas não querem necessariamente saber qual é a posição ideológica de cada político.
Querem emprego.
Querem segurança.
Querem saúde.
Querem educação.
Querem oportunidades.
Querem respeito.
Querem poder trabalhar e cuidar de suas famílias.
A política precisa voltar a falar com o Brasil real.
Precisamos reconstruir uma grande frente democrática
É aqui que vejo o maior desafio das forças progressistas.
Não acredito que o caminho seja simplesmente formar uma frente de esquerda.
O momento exige algo muito maior.
Precisamos construir uma grande aliança democrática.
Progressistas.
Esquerda.
Centro-esquerda.
Centro.
E também os verdadeiros conservadores que acreditam na democracia, respeitam as instituições e entendem que adversário político não é inimigo.
Eu não tenho dificuldade alguma em conversar com quem pensa diferente de mim.
Aliás, acredito que esse será cada vez mais o papel daqueles que realmente querem fazer política.
Precisamos voltar a conversar.
Conversar com quem concorda.
Conversar com quem discorda.
Conversar com quem está no centro.
Conversar com conservadores democráticos.
Conversar com empresários.
Conversar com trabalhadores.
Conversar com as cidades do interior.
Conversar com o Brasil inteiro.
A política precisa deixar de ser uma guerra
Tenho defendido há muito tempo que precisamos recuperar o verdadeiro sentido da política.
Política não deveria ser simplesmente uma disputa para saber quem derrota quem.
Política deveria ser a capacidade de construir soluções.
É claro que existem diferenças ideológicas.
É claro que existem projetos de país diferentes.
É claro que precisamos disputar eleições.
Mas, depois das eleições, existe um país para governar.
Existe uma população para cuidar.
Existem cidades para desenvolver.
Existem empregos para criar.
Existem crianças para educar.
Existem famílias esperando atendimento na saúde.
Existem jovens procurando uma oportunidade.
E existe uma democracia que precisa ser preservada.
O segundo turno decidirá o presidente. O Congresso já está eleito.
É por isso que considero este primeiro turno tão importante.
A eleição presidencial ainda será decidida.
Eu acredito na vitória de Lula.
Mas, se isso acontecer, não será o fim da disputa política.
Será o começo de uma etapa ainda mais difícil.
Lula terá de construir uma maioria política suficientemente ampla para governar.
E as forças democráticas terão de compreender que não basta defender a democracia nos discursos.
É preciso construir condições políticas para que ela funcione.
Será necessário diálogo.
Será necessário equilíbrio.
Será necessário capacidade de negociação.
Será necessário reconhecer que democracia não é unanimidade.
E será necessário impedir que o Brasil continue prisioneiro de uma política baseada exclusivamente no confronto.
Uma nova etapa da política brasileira
Depois de tantos anos acompanhando eleições, aprendi uma coisa:
quem olha apenas para o resultado de uma eleição muitas vezes não consegue enxergar o que está acontecendo de verdade.
O resultado de 2026 mostra um Brasil politicamente dividido, com uma direita fortalecida no Congresso e uma disputa presidencial extremamente competitiva.
Isso exige inteligência política.
Exige estratégia.
Exige humildade.
E exige capacidade de enxergar além da próxima eleição.
Se Lula vencer, terá de governar para todos.
Se a oposição quiser cumprir seu papel, terá de fiscalizar sem transformar a política em guerra permanente.
E as forças democráticas, de diferentes correntes ideológicas, terão de encontrar aquilo que as une: a defesa da democracia, da Constituição, das instituições e da possibilidade de o Brasil avançar.
Eu continuo acreditando que a política pode ser instrumento de transformação.
Continuo acreditando que é possível fazer política com princípios.
E continuo acreditando que o Brasil pode encontrar um caminho de desenvolvimento, justiça social, responsabilidade e democracia.
Mas isso exigirá uma mudança de atitude.
Menos ódio.
Menos intolerância.
Menos política de torcida.
Mais diálogo.
Mais estratégia.
Mais responsabilidade.
Mais compromisso com o povo brasileiro.
O primeiro turno terminou.
O segundo turno ainda vai decidir quem governará o Brasil.
Mas uma coisa já está decidida:
o próximo presidente terá diante de si um Congresso diferente e um país que exigirá muito mais do que vitória eleitoral.
Exigirá capacidade de liderar.
E, acima de tudo, exigirá capacidade de construir.
Porque ganhar uma eleição é uma coisa.
Governar um país dividido, preservar a democracia e construir um futuro melhor é outra — e muito maior.
Antônio Fidelis dos Santos
Antonio Fidélis dos Santos é Consultor – Empresário – Defensor da Democracia e da Justiça Social. Um apaixonado por Lins. E-mail: antoniofidelis.consultoria@gmail.com
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