Existe uma regra básica para quem acompanha uma eleição: não confundir desejo com realidade.
É uma regra que vale para quem torce por Lula, para quem torce por Flávio Bolsonaro e para quem prefere qualquer outro candidato.
E, quando colocamos as pesquisas mais recentes sobre a mesa, uma coisa chama atenção: Lula chega à reta final da eleição numericamente na frente em boa parte dos levantamentos.
Mas há uma segunda conclusão, igualmente importante:
ainda não existe, nos dados agregados, uma maioria absoluta que permita dizer que a eleição será decidida no primeiro turno.
E é justamente aí que começa a parte mais interessante da análise.
Os números estão falando
Datafolha, Quaest, AtlasIntel, BTG/Nexus, RealTime Big Data, Meio/Ideia e Palver apresentam fotografias diferentes, porque utilizam metodologias e períodos de campo distintos.
Mas, olhando o conjunto, Lula aparece geralmente entre 39% e 45% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro aparece aproximadamente entre 34% e 44%.
O Poder360, ao reunir 13 pesquisas nacionais realizadas entre 9 de setembro e 1º de outubro, registrou Lula numericamente à frente em dez levantamentos e Flávio em três.
Isso não significa que Lula ganhou.
Significa que, na fotografia mais recente, Lula chega à reta final com vantagem numérica em boa parte dos institutos.
E isso precisa ser reconhecido, independentemente de preferência política.
Mas existe um detalhe que muda tudo
Para vencer no primeiro turno, não basta ser o candidato mais votado.
É necessário obter mais da metade dos votos válidos.
E os números agregados ainda colocam Lula abaixo dessa barreira.
O levantamento do Congresso em Foco, reunindo as pesquisas mais recentes de sete institutos, calculou 44,4% dos votos válidos para Lula e 40,2% para Flávio Bolsonaro.
O Datafolha, em sua pesquisa realizada entre 29 de setembro e 1º de outubro, encontrou 45% para Lula e 40% para Flávio entre os votos válidos.
Ou seja:
Lula está na frente. Mas ainda não está nos 50% necessários.
Essa diferença é pequena o suficiente para tornar a discussão sobre primeiro turno relevante, mas grande o suficiente para impedir qualquer conclusão antecipada.
E aqui entra o voto útil
A reta final de uma eleição presidencial costuma produzir um fenômeno conhecido como voto útil.
O eleitor começa a abandonar candidatos com pouca possibilidade de chegar ao segundo turno e passa a concentrar sua escolha entre aqueles que considera competitivos.
Isso pode alterar bastante o resultado.
E há um dado particularmente importante: os candidatos que aparecem abaixo de Lula e Flávio ainda reúnem uma parcela do eleitorado.
Portanto, existe um contingente de votos que pode ser redistribuído.
A pergunta é:
para onde esses votos irão?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes dos últimos dias da eleição.
Se houver uma concentração significativa de votos em Lula, ele poderá se aproximar da maioria absoluta.
Se a concentração acontecer em direção a Flávio, a disputa poderá se estreitar.
Se os demais candidatos conseguirem manter suas posições, o segundo turno ganha força.
Não há como saber antecipadamente qual desses movimentos prevalecerá.
O segundo turno conta outra história
Existe outro dado que merece atenção.
Embora Lula apareça à frente em vários cenários de primeiro turno, as simulações de segundo turno contra Flávio mostram uma disputa muito mais apertada.
No Datafolha mais recente, Lula aparece com 48% contra 45% de Flávio, dentro de um cenário de empate técnico considerando a margem de erro de dois pontos.
Na Quaest, os dois aparecem com 42% no segundo turno.
Isso revela algo que não pode ser ignorado:
a liderança de Lula no primeiro turno não significa que exista uma distância equivalente numa eventual disputa direta.
A eleição continua polarizada e competitiva.
A eleição ainda está aberta
É exatamente por isso que considero precipitado qualquer discurso de “eleição ganha” antes da abertura das urnas.
Há uma diferença enorme entre dizer:
“Lula lidera as pesquisas”
e dizer:
“Lula já ganhou a eleição”.
A primeira afirmação encontra respaldo nos levantamentos mais recentes.
A segunda não.
As pesquisas não votam.
Os institutos não votam.
Os comentaristas políticos não votam.
Quem decide é o eleitor.
Mas existe uma possibilidade real de primeiro turno?
Sim.
Os números não autorizam descartar essa possibilidade.
Lula está na casa dos 44% a 45% dos votos válidos em algumas das principais medições e, portanto, existe um caminho matemático para chegar aos 50%.
Mas também não existe, neste momento, evidência suficiente para afirmar que essa trajetória será necessariamente percorrida.
O que pode fazer diferença?
Voto útil.
Indecisos.
Abstenção.
Desempenho dos candidatos menores.
Últimos acontecimentos da campanha.
Capacidade de mobilização dos dois principais grupos políticos.
Tudo isso pode alterar a fotografia final.
A minha leitura
O que vejo nas pesquisas é uma eleição que chegou ao momento decisivo.
Lula conseguiu construir uma vantagem numérica importante no primeiro turno em boa parte dos levantamentos.
Flávio Bolsonaro permanece suficientemente forte para impedir qualquer acomodação e mantém uma disputa muito apertada nos cenários de segundo turno.
E os demais candidatos enfrentam o desafio de preservar seus votos diante da pressão crescente pelo voto útil.
Por isso, o primeiro turno não deve ser tratado como uma formalidade.
Pode ser uma disputa decidida por poucos pontos.
Pode haver segundo turno.
E, embora exista um caminho matemático para uma vitória de Lula já no primeiro turno, os dados disponíveis ainda não permitem tratá-la como algo provável ou definido.
A pesquisa é uma fotografia. A urna é a realidade.
Talvez essa seja a melhor síntese para este momento.
A fotografia mostra Lula à frente.
A fotografia também mostra Flávio Bolsonaro muito próximo.
E a fotografia ainda não mostra nenhum dos dois acima de 50% dos votos válidos.
O resto será decidido pelo comportamento do eleitor.
E é justamente por isso que os próximos dias serão tão importantes.
Não é hora de comemorar vitória.
Também não é hora de decretar derrota.
É hora de olhar os números com serenidade, comparar as pesquisas, observar os movimentos da campanha e, principalmente, lembrar que democracia não se faz com pesquisa.
Democracia se faz com voto.
No domingo, todas as pesquisas serão deixadas de lado.
A urna não perguntará em quem você pretendia votar.
Ela registrará em quem você efetivamente votou.
E, naquele momento, a única pesquisa que realmente importará será a contagem dos votos.
Antonio Fidélis dos Santos é Consultor – Empresário – Defensor da Democracia e da Justiça Social. Um apaixonado por Lins. E-mail: antoniofidelis.consultoria@gmail.com
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