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COMPROMISSO DE VERDADE
14 de outubro de 2019

Crônica -A sanfona do meu avô

Era a descoberta de um mundo novo, de uma nova e curiosa perspectiva de ver a vida

Imagem Ilustrativa do Google

Ainda me lembro, como tinta fresca em contato com o papel, do meu avô tocando sanfona em seu humilde quarto lá em Araçatuba. Eu, criança de tudo, ingênua, porém curiosa, costumava às vezes espia-lo através da fresta da porta entreaberta. A curiosidade que tomava conta de mim advinha das notas, da melodia, que na busca da perfeição, entre tentativa e erro, meu avô conseguia tocar e alcançar seu objetivo.

Dentro das minhas capacidades cognitivas à época, gostava de observar a grande ciência que era tocar aquele instrumento. Este era feito de madre pérola vermelho, com acabamentos em dourado e preto, que brilhava intensamente quando em contato com a luz natural do sol.

Era possível contemplar todo o zelo, a coordenação motora imposta das duas mãos e dos dois braços, que trabalhavam simultaneamente, mas com objetivos distintos, entre as teclas da mão direita e das teclas da mão esquerda, além de dar atenção aos movimentos de “abre e fecha” do fole onde se criavao som. Era maravilhoso apreciar a grandeza daqueles pequenos gestos, daqueles pequenos sons, que fragmentados, ao final, se transformavam em uma deliciosa melodia, chamando a atenção de um canarinho vadio que pousara na grade da janela.

Mas os anos se passaram implacavelmente. Cresci e me tornei um adulto, um homem. Nesse ínterim, meu avô acabou falecendo. Foi-se o sanfoneiro, mas ficaste a sanfona. Estudei, adquiri conhecimentos, diversas técnicas, livros, métodos, fórmulas e etc., muito mais do que meu avô talvez suponha algum dia poder conhecer.

Pois bem, a vida tem dessas coisas, que nos possibilita ver que cada um é único e especial, importante e amado aos olhos de Deus, cada qual com suas qualidades e virtudes, independentemente de sermos instruídos ou não.

Assim como meu avô jamais poderia supor ter o conhecimento que eu pude adquirir através dos estudos, eu certamente também jamais poderia supor tocar aquela sanfona com tanta paixão e maestria com que ele a tocava naquele quarto, sem nenhum ouvinte por perto, a não ser, é claro, meus ouvidos atentos e os meus olhos vidrados através da fresta da porta entreaberta.

Autor: Renato Araújo, advogado e consultor jurídico.
Referência: O autor

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